O assassinato do Tenente Augusto em Porto Nacional e uma reflexão sobre a onipresença da homofobia

Tenente Augusto
Tenente Augusto

Por: @eduardoazev

A morte do tenente da Polícia Militar do Tocantins, Francisco Augusto Vidal, de 36 anos, ocorrida no último dia 03, tem levantado discussões em torno dos motivos que teriam levado à ocorrência do crime. Algumas delas eu presenciei. Uma ocorreu na Universidade Federal do Tocantins (UFT) da seguinte maneira.

Dois amigos conversavam sobre o assassinato.

– Meu pai veio conversar comigo. Ficou com medo da situação depois da morte do policial. Agora vão relacionar gays a morte e tudo mais. Como sempre. Se bem que senão houvesse homofobia seria bem mais fácil.

– Mas eu acredito que não tenha nada a ver com homofobia. Não tem lógica. Eles roubaram e depois executaram o homem. Não sei onde a homofobia entra nisso. Talvez tenha sido latrocínio… – disse o outro em resposta.

Nesse momento coube uma reflexão (minha). Destaco que nunca fui desses de militar por uma causa. De sair para as ruas e defender algo ou uma causa. Nem sai de casa nas manifestações do ano passado. No entanto eu admiro muitos meus amigos e colegas que fazem isso com garra. E que fazem a diferença. No final das contas eu sei que eles não querem nenhum direito a mais. Querem apenas os mesmos.

As vezes a gente até entende de um assunto, mas não sabemos a sua dimensão até o caso chegar perto. É o que eu chamo de ser afetado pela aproximação do fato. Ao fazer essa reflexão, depois de conversar com algumas pessoas, e pensar um pouco melhor sobre o assunto só me veio uma coisa na cabeça: o quanto a homofobia é mais cruel do que eu imaginava. E o pior, o quanto ela é onipresente.

A divulgação de que o policial estaria com outros rapazes em um local afastado praticando sexo com certeza deve ter incomodado muita gente. Principalmente da forma como foi divulgada na mídia local. Ouvi pessoas afirmarem que se sentiriam envergonhadas em ter a família exposta daquele jeito.

Uma máxima de que quem é culpado é a vítima, não o criminoso.

Mas e se não houvesse distinção, preconceito ou julgamento (e homofobia) será que o tenente precisaria ter ido para um local abandonado, longe de tudo junto com os rapazes? O tenente não é único. Quantas pessoas não fazem coisas “escondidas” e se arriscam pelo simples medo de serem condenadas por uma sociedade?

Casos como o do Tenente esfregam na nossa cara o preconceito de muitos que nos rodeiam. O preconceito de toda uma sociedade.

A homofobia mata muito mais do que a gente imagina.  E mata também escondido, sem ninguém perceba.

Eu sinto muito pelo Tenente e por todos os amigos que lotam o feed dele com elogios da pessoa excelente que ele era e também exaltam a saudade que ele deixará. Eu sinto muito por não ter feito minha parte em lutar por uma sociedade mais igualitária junto com meus amigos e colegas citados lá no início do texto. Infelizmente eu também faço parte das estatísticas.

“Se pudéssemos ver o coração dos outros e entender os desafios que cada um enfrenta, acredito que nos trataríamos todos com mais gentileza, tolerância, paciência e cuidado” – Texto compartilhado pelo Tenente Augusto no facebook.

Confira o vídeo feito pela PM-TO em homenagem ao Tenente:

(Imagem: Reprodução/Facebook)

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6 comentários em “O assassinato do Tenente Augusto em Porto Nacional e uma reflexão sobre a onipresença da homofobia

  1. Que lindo o vídeo que a PM fez pra ele. Uma bela homenagem.
    E muito bom seu texto Edu!
    É triste pensar que a conduta de risco adotada pelo Ten. Augusto possa ser decorrente do medo/receio de se assumir perante a família e a corporação.
    Infelizmente, pra alguns isso é sinônimo de vergonha, desonra.
    O tenente pagou com a vida, isso sim deveria ser motivo pra vergonha.

  2. Muito inteligente o texto e a exposição de um problema real e muito mais grave do que aparenta.
    É triste como há pessoas que não percebem a gravidade dessa situação e acham que os homossexuais querem ter “mais direitos” que os outros, quando na verdade tudo que se busca é o equilíbrio proposto pelo princípio da igualdade.
    É importante lembrar que a igualdade não é tratar todos como iguais, mas sim tratar os desiguais de forma desigual a fim de balancear os direitos de todos.

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